sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

ato de última vontade.

em tempos de lutas coletivas, de revolução e indignação nas ruas da minha cidade (e que orgulho do povo teresinense!), sinto como se eu estivesse cometendo um crime (ao contrário dos presos políticos aqui apreendidos na última terça-feira) em parar pra escrever sobre mim e fazer essa postagem. mas lembrei da função a que destinei esse blogue, assim como a pedaços de papel soltos, folhas finais de cadernos e diários.

"...preciso demais desabafar." colocar em algum lugar do mundo, mesmo que seja apenas meu, essa angústia que me transforma em ameba, lixo humano. preciso entender, mesmo que sozinha, essa confusão estúpida, vulgar, egoísta que vem me invadir. preciso me entender, entender meu tempo e toda essa cachoeira de dor que insiste em se derramar por/em mim.

eu não tenho medo da morte. aliás, ela tem estado tão próxima, que já é quase banal. isso não quer dizer que eu lhe seja indiferente. acho até que a morte traz sabedoria a quem sobrevive, nem que seja forçada. se ela viesse hoje até mim, confesso, eu iria feliz. não pela vida que tenho, como se partisse de missão cumprida, tendo sido a mais feliz das viventes, mas pela morte em si. tenho sentido uma saudade imensa do que não tenho mais. chego a acreditar piamente que após a existência terrena deve haver um conforto pra alma que fica vazia com a perda de alguém. quiçá/oxalá um reencontro! eu tenho medo mesmo é de mim, viva!

o medo é quase como alimento pra mim. eu diria que alimento com agrotóxico. meu veneno diário. em verdade, me sinto morta, de tanto medo. 24 anos de morte quase ininterrupta. não nasci pra viver, pelo menos não muito até aqui. nunca questionei um professor, por medo. cresci sem grandes contestações a meus pais. pouco ou nada transgredi a ordem aqui estabelecida. pouco fui punida. servir de experimento para tal função pedagógica da pena, entretanto, não me apetece nem me deixa orgulhosa do meu passado: nunca ter apanhado demonstra que sempre obedeci ao que me era imposto, sendo certo ou errado, sendo justo ou não, ferindo a mim e meus direitos ou não. sempre temi, mais do que protestei. na escola, ser motivo de chacota ou humilhação sempre me causou um efeito desprezível: corria, me escondia do mundo, ao invés de partir pro confronto. desconheço a arte do enfrentamento.

o direito de pensar, porém, nunca me foi negado. aos meus pais, a minha mais profunda gratidão por isso. podia o orçamento operar no vermelho no fim do mês, mas deixar de comprar o livro que fosse preciso/pedido nunca foi sequer ato por eles cogitado. eis aí o berço de toda a minha angústia: quem pensa, questiona, mesmo que silenciosamente. meus pais me ensinaram a pensar, mas me reprimiram a ação, a força transgressora. me incutiram o medo e a ele eu sempre fui fiel (a única fidelidade de que partilho: a que se firma com os próprios sentimentos), embora tenha conspirado a vida toda contra ele, lhe sendo desleal. que inútil: minhas lutas internas sempre me mostraram que ele é muito maior do que eu. cá estou, escrevendo sobre o próprio.

meus anos de universidade foram verdadeira saga do conflito questionamento/contestação/indignação X medo. advinha quem saiu ganhando? cinco anos desesperadores, onde transitei entre o movimento e a inércia, entre o coletivo e o individual, entre falar e não falar. calei, na maior parte das vezes. fugi de mais um bocado de chances. e hoje sou um poço profundo de arrepedimento pelo que me neguei viver, pelos momentos e construções que me usurpei.

meu medo tem dessas manipulações: ele me coloca contra mim. e em dias como os últimos, eu só tenho ódio e descrédito gratuitos pela Juliana de Andrade Marreiros. é tanto ódio que não queria mais existir. não, não quero mais exsitir. eu não quero mais estar no mundo, eu quero vivê-lo. mas eu não sei. nunca soube. não se vive caladx. não se luta caladx. não acredito nem no sorriso silencioso. parece frio, falso. sou esses 1,58 m de mudez. mesmo parecendo pouco, é muito pra mim. eu explodo todos os dias, quieta. cansei de ficar juntando meus pedaços.

eu não posso mais mentir. enganar a quem? não desejo estar aqui, nessa subvida. não tenho vontade de sair. não tenho vontade de ficar. não entendo os dias. nem queria acordar. há tempos não consigo ouvir. meus ouvidos se fecharam, porque não se ouve bem quando se encontra em coma. me sobra impotência. não sei que horas são. não sei meu RG (melhor seria não ter). não tenho vontades. respiro por aparelhos, quais sejam, as promessas falsas que andei fazendo. ando pequena, encolhida, nula. nem os sentimentos, esses que eu sempre dei um jeito de expressar, escaparam da minha covardia, do meu silêncio. escrever já não me ajuda. escrever se resumiu a nada.

estou morta em 2012, ainda que pareça prematuro dizer isso. vou na contra-mão de Belchior que, cheio de certezas, afirma "ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro!" que inveja, caro Belchior!

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Sentada na frente do Word, escrevo...


Ando meio carente...e quem não tá?

Tenho fingido não sentir o que sinto, sentindo o que finjo...e quem não finge?

Desejo da vida muito mais do que o que ela pode me dar...quem nunca?
Todo dia, criando expectativas das horas...e se assim não for, como fazê-las acontecer?

Talvez eu tenha desenvolvido desejos que não cabem só a mim satisfazer...acho até que faço minha parte. Mas quem nunca esperou e se frustrou? Não fosse o enorme tropeço que é esbarrar no limite do outro, saberia eu por onde andar?

Sei que bom mesmo é não sabê-lo. Sei que a gente só caminha porque não sabe onde vai dar...mas sei que nem sempre vai dar pra se atirar no escuro, porque os sustos podem ser fatais.

Por isso, a gente insiste em tropeçar.

Eu sou as coisas. Melhor seria está-las. Mas sou e isso não sei fingir. Contraditória. E quem não é?

Eu sou o que me atravessa. Calmaria ou angústia. Medo ou esperança. E sou muito. Mas queria mesmo era estar. E quem não gostaria?

Tem aquela pessoa que eu gostaria de envolver em um abraço longo, quase infinito. Tem aquela que eu queria ter do meu lado sempre. Tem aquela que me faz querer correr o mundo todo. Tem aquela que concentra uma parte grande da minha admiração e da minha vontade de ser como ela quando crescer. Tem aquela que atrai os meus instintos mais sacanas. Tem aquela que eu imortalizaria em uma escultura. Tenho desejo pra cada pessoa e pessoa pra cada desejo. Quem não tem?

No fim, sou tão normal. Meramente mortal. Partilho do que todo mundo faz, do que todo mundo sente e quer. Não sou melhor nem pior que ninguém.

Minhas necessidades não são maiores do que as de outra pessoa. Falta o que pra dividi-las já que sozinha não quero/posso estar? Como ninguém pode, como ninguém quer.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Como você.


Ei, você cheio de manha, com as veias pulsando testosterona, presta atenção!

Se é de hormônio que você se gaba, temos dois. Exalamos feminilidade e não estou falando do perfume de rosa ou da maquiagem, que ao fim da noite provavelmente não terá vestígios. Tô falando de ser fêmea, de levar no corpo o desejo do mundo todo, tantas vezes a nós negado; fêmea que se embriaga na primeira nota de um blues, desce até o chão num funk, faz faceirice num samba, em cima de um salto ou sobre pés descalços, e se apropria do tempo em um canto, desafinado, que seja.

Tô falando de mulher com alça do sutiã à mostra, quiçá com as bochechas da bunda desnudas, e com aquela velha mania e nova desinibição de tirar a calcinha do meio das bandas, ali, no meio de todo mundo. Pode ser com uma saia rodada, ou um vestido curto, essa mulher que transborda a noite, que pensa e que não mais cala, carrega no peito a ilusão de ser compreendida, de ser lida. Ela só deseja estar alcançável por sua humanidade, ser tocada como gente, abraçada como vida, querida pelo sangue que lhe mantém firme no sonho e na luta. Não a reduza a um suculento pedaço de carne pronto pra ser atacado.

Você, tão cheio de si, com essa mania de querer ter, não enxerga, mas ela tem vontade própria. Ela quer escolher quem beijar, com quantos ficar, pra quem dar e com quem conversar, exatamente como você o faz. Ela sabe que pode olhar pro lado e desejar, como também pode olhar e se desagradar, exatamente como você o faz. Não se irrite, não é marra. Ela só segue o corpo, como você o faz. E sim, pode ser marra. Ela não quer lhe pegar, como você tantas vezes preferiu não fazer.

Não se ourice demais se ela lhe apertar forte ou lhe enroscar as pernas. Pode ser só um jeito carinhoso/assanhado de lhe dar um oi. Não necessariamente significa um “sim” no fim da noite ou que você possa grudar, lhe alisando a pele como se fosse roupa nova. Na maioria das vezes, ela também vai preferir ficar solta e ter o vento como seu melhor toque. Também não se choque se ela não tiver mais nos dedos a conta dos corpos com que se atracou. Ela tem curiosidade dos beijos, dos gostos e dos jeitos, como você também tem.

Se ela tá avulsa, solteira, de mãos vazias, não leia: “tá disponível!” Ela não é um reservatório de cantadas, tampouco uma caça. A disponibilidade dela vai depender do que seu corpo comunicar. Sabe, mais inteligente mesmo é dialogar, seja por palavras, seja por gestos, seja por olhar...não ultrapasse a linha do “posso agarrar” sem andar pela linha do “tá afim?”.

Não se assuste se ela lhe encara ou se lhe sussurra, ou se no envolvimento, ela lhe agarra o pescoço e lhe beija os lábios ou outra parte qualquer. Ela não é puta ou “fácil”! Só não se priva, nem refreia seus instintos se eles lhe levarão onde ela quer, exatamente como você procede. Nem ache que ela estará ali sempre paciente, na espreita dos seus movimentos. Ela saberá avançar, é só você lhe permitir fazer. Você, com sua “macheza”, que acha que sempre sabe em que terreno está pisando, rotulando e padronizando condutas, separando as santas, que precisam ser cortejadas, e as vadias, que gritam por ser abordadas; as fáceis, que só precisam ser apalpadas, das difíceis, que precisam de um festival de lábia... Quanta asneira! Permita-me apenas dizer que uma mulher não tem porque dificultar se ela também quiser ficar, a não ser que seja charme que ela ache interessante jogar. E tenha a certeza que ao “facilitar”, ela pensava no prazer dela, não no seu ego masculino infantil.

É que você segue uma dinâmica tão violenta, regida pelo enrijecimento do seu queridinho entre suas pernas...mal sabe que entre as dela corre um mundo de segredos, que ela revelará pra si, quem sabe pras amigas, aquelas com a cabeça tão livre quanto a dela...Se você fosse um pouquinho menos patético e fálico, conheceria esse segredos e provavelmente faria bom proveito, junto dela. Essa violência que nos tira a fala, que nos suprime a ousadia, que nos arranca a coragem, que diariamente nos impele ao auto-enfretamento, doloroso e contraditoriamente calado, não lhe permite perceber: ela pode querer sexo, e só sexo, como você também quer. Ela só não quer ser deixada na fila de espera, com senha marcada pra quando bem lhe aprouver.

Não pense que ela também não tem seus vários/outros alvos. Ou que ela também não saberá lhe deixar esperando um telefonema no dia seguinte. Ela preza pelo nascer do sol coroado por seu espelho, com um sorriso nele refletido de quem lembra: “Foi bom. Tô pronta pro dia, tô pronta pra outra.”.

Você e esse péssimo hábito de se camuflar nas situações, em nome de seus interesses penianos, descartando a companhia de uma fêmea legal, ocultando seus rastros, silenciando sua existência diante de outra fêmea, achando que ela comprometeria suas aventuras...No máximo, ela lhe sorriria, fumaria um cigarro, degustaria uma bebida e dançaria, sozinha ou acompanhada. E quando você acha que a mudez dela não quer dizer nada, pode querer dizer tanto...ela cala talvez porque não lhe foi dada a palavra. Mas ela gritará...ô, se gritará! Com os pulmões, produzindo eco, abrindo os braços, dançando...

Entenda: ela tem querências, como você também tem. Se você quer a liberdade, de escolha, de prática, de fala, de pensamento, ela também quer. Se é de desprendimento que você sente falta, ela também o reivindica. Se você não nega seu corpo, ela também assim o faz. Se a noite acabou, não significa que ela queira o dia também. Mas se a noite pode se repetir, porque não, se os sentidos assim reclamarem? Isso não implica amarra, comprometimento... é só um lance, com direito replay. Nada disso faz dela menos mulher, de forma inversamente proporcional ao que te faz mais homem. São desejos humanos, inerentes ao corpo e à vida. Falta-lhe enxergar que enquanto ela foi roubada, subtraída, você foi contemplado, beneficiado. Às vezes, você enxerga, mas covardemente, se aproveita. Ou, às cegas, de tão mal-acostumado, negligencia.

Essa mulher só quer sorrir. Levar da vida o gosto do prazer e a certeza do amar. Respeito, admiração, carinho, sonhos...ela também quer carregar. Ela quer a voz, a vez, o caminhar, sem dedos ou armas apontados no seu nariz, dizendo-lhe o que fazer, como viver, o que usar. Ela quer o direito de seguir, sem repressão, amargura ou determinações. Ela quer do mundo só o seu existir, exatamente como você o faz...